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US$ 425 mil por um emoji: a startup que vendeu domínios que não existiam

Curiosidade · emoji, o Yat e um domínio que venceu

Atualizado em

O .com.br recusa emoji. Em 2021 o Yat vendeu 160 mil endereços de emoji, um por US$ 425 mil, sem registrar nenhum domínio. Quem fez, quem pagou e o que sobrou.

Em 2021, alguém pagou US$ 425 mil por um único emoji: uma chave. Não comprou um domínio. Comprou uma linha no banco de dados de uma startup, que transformava a chave num endereço. Se fosse no .com.br, nem isso: em 18/10/2026, a consulta do Registro.br para um emoji respondeu "Domínio inválido". Não é nome ocupado, é nome que não pode existir.

Esta é a história de como um endereço impossível virou um negócio de US$ 20 milhões, de quem estava por trás dele e de como ele terminou, ironicamente, por causa de um domínio que ninguém renovou.

Por que o .com.br diz não

Dá para ter ação.com.br, com acento e cedilha. Emoji, não. Três camadas decidem se um nome pode existir:

  1. O DNS só transporta letras sem acento, números e hífen. Qualquer outro caractere viaja disfarçado em código (xn--..., o punycode). O DNS, sozinho, não proíbe nada.
  2. O padrão de nomes internacionais, revisto em 2010 (IDNA2008), deixou de aceitar símbolos. Entram só caracteres de línguas escritas. O motivo cabe numa frase do próprio padrão: existe "mais de um caractere de coração" (RFC 5894). ❤, ♥ e ❣ parecem iguais para quem lê e são diferentes para o computador, e um endereço precisa ser exato. Em 2017 a ICANN desaconselhou emoji em qualquer parte de um domínio (SAC 095), e .com, .net e .org estão presos a isso por contrato.
  3. A regra de cada extensão. No .br, a Resolução CGI.br 008/2008 aceita letras, números, hífen e 13 letras acentuadas do português (à á â ã é ê í ó ô õ ú ü ç). E trata café e cafe como o mesmo nome, para ninguém registrar um sósia. Emoji seria o contrário disso. Detalhe em Qual o tamanho mínimo e máximo de um domínio .com.br?

Quem quis emoji foi para extensões de países pequenos que não assinam contrato com a ICANN e vendem o próprio sufixo ao mundo: hoje, principalmente .ws (Samoa), .fm (Micronésia) e .to (Tonga). Em 2015 a Coca-Cola de Porto Rico registrou todos os emoji sorridentes no .ws, que a agência leu como "We smile", nós sorrimos (VentureBeat).

Existe até ☮.com, criado em 2001, antes da regra de 2010. É uma relíquia: foi vendido em 2017 por € 3.400 (DomainIncite), e nenhum .com com emoji pode ser registrado hoje. A maior venda pública que achamos de um domínio de emoji de verdade é ☁.com, por US$ 13,6 mil. Guarde esse número.

Um endereço de uma letra

O .at é a extensão da Áustria. Em 2019, quem digitava y.at caía numa página de espera da nic.at, o registro austríaco, comemorando os "novos domínios curtos" do país: "Kürzer ist besser", mais curto é melhor.

Página da nic.at em y.at, em alemão e inglês: obrigado por visitar um dos novos domínios curtos da Áustria; este domínio já tem dono e será ativado em breve. Rodapé: mais curto é melhor.
y.at em maio de 2019, antes do Yat: a página de espera da nic.at. Captura do Internet Archive.

Em 1º de fevereiro de 2021 o endereço de uma letra ganhou vida: nascia o Yat. O que a empresa vendia vinha depois da barra: y.at/🔑, y.at/🚀🌙, y.at/🌈🚀👽.

Quem fez o Yat

O Yat é lembrado como coisa do Vale do Silício, mas a sede era Nashville, no Tennessee, a capital da música country (MusicRow, Opera). A empresa se chamava Emoji ID, LLC, registrada em Delaware, e chegou a 80 funcionários em julho de 2022 (Fortune). Os dois cofundadores:

Os dois já tinham fundado em 2018, com Dan Teree (cofundador da Ticketfly, vendida por US$ 450 milhões), a Tari Labs, um projeto de blockchain com escritórios em Oakland, na baía de São Francisco, e em Joanesburgo (Fortune). O Yat se apresentava como empresa-irmã da Tari, "parte do ecossistema Tari".

De onde veio o dinheiro

A Tari começou em 2018 com US$ 1,25 milhão e levantou mais US$ 12,6 milhões em abril de 2021, dois meses depois do lançamento do Yat (The Block). Entre os fundos que a apoiaram estão Redpoint, Trinity Ventures, Canaan Partners, Slow Ventures, Pantera, Multicoin e Blockchain Capital, nomes grandes do capital de risco americano e do mundo cripto.

No Yat, a lista de investidores é outra mistura: os fundos Blockchain Capital, Collab+Currency, Hack VC e Slow Ventures, e músicos. O rapper Lil Wayne, G-Eazy, Questlove e Black Thought (do grupo The Roots) e Mack Maine, presidente da gravadora Young Money. Quanto cada um pôs e quanto a empresa valia nunca foi divulgado (Fortune). Os "US$ 20 milhões" que aparecem em toda reportagem não são investimento: são vendas.

Como se vende um emoji por US$ 425 mil

Com escassez, preço de videogame e famosos. O roteiro:

Funcionou. Até julho de 2021, quase US$ 20 milhões (TechCrunch). Em fevereiro de 2022, cerca de 160 mil Yats vendidos, uns US$ 125 em média. Só que o total de fevereiro e o de julho de 2022 eram os mesmos US$ 20 milhões de julho de 2021: quase tudo foi vendido nos primeiros seis meses, no auge da febre dos NFTs. O acordo com o Opera chegou depois de as vendas pararem.

"People don't care about databases", disse Jain à TechCrunch: as pessoas não ligam para banco de dados. Era o ponto.

O truque: nunca foi um domínio

O Yat não registrou emoji em registro nenhum, nem em blockchain. A empresa tinha um domínio comum, y.at, comprado num registrador tradicional, e cada emoji era uma linha no banco de dados dela, com os links do dono. Abrir y.at/🔑 é pedir ao servidor do Yat que procure a chave na tabela e devolva o endereço guardado: o mesmo que um encurtador de link faz com bit.ly/abc. O Opera não resolvia emoji, só reescrevia o que a pessoa digitava para y.at.

A propaganda falava em identidade "resistente a censura". Os termos de uso de 2021 diziam outra coisa: o emoji não podia ser transferido, e a empresa podia suspender a conta quando quisesse (NFTs.WTF). A promessa de levar tudo para uma rede descentralizada ficou, nas palavras do próprio Jain, "mais um contrato social do que uma implementação". O fundador do Emojipedia resumiu: "o Yat não é Unicode".

O silêncio

Não houve anúncio de fechamento, venda nem demissões. O Yat simplesmente parou de aparecer: a última reportagem que achamos é de julho de 2022. Antes disso, em julho de 2021, Spagni foi preso em Nashville, numa escala para abastecer um jato fretado, a pedido da África do Sul. Ele é acusado de fraudar faturas de uma fabricante de biscoitos da Cidade do Cabo, onde foi gerente de TI entre 2009 e 2011: mais de 1,5 milhão de rands, uns US$ 100 mil (CoinDesk). Voltou à África do Sul em 2022, declarou-se inocente das 378 acusações e, até a última notícia que encontramos, de setembro de 2023, o processo não tinha sentença (Cape Times).

A Tari, a irmã, seguiu em frente e lançou a rede própria em 6 de maio de 2025. Os Yats não foram junto: em agosto de 2026, no fórum da Tari, quem ainda tem um perguntava quando eles chegariam ao aplicativo novo. A pergunta seguia sem resposta oficial.

O que sobrou dos famosos é curioso. A página da Kesha guardada no Internet Archive tem o título certo, "🌈🚀👽 | Kesha's World", mas o aplicativo do Yat não roda dentro do arquivo, e o que aparece é a tela de erro da própria empresa:

Ilustração de um fantasma sorridente com a língua de fora, num céu com planetas, um foguete e um alienígena, e a frase Nothin' to see here, nada para ver aqui.
y.at/🌈🚀👽, a página da cantora Kesha, como o Internet Archive a guarda (captura de abril de 2021): "Nothin' to see here", nada para ver aqui.

E a chave de US$ 425 mil, em outubro de 2026, leva a um perfil numa rede social.

O domínio que ninguém renovou

O site do Yat continua no ar e ainda vende: em 21/10/2026, quatro emoji estavam disponíveis, na "geração 2". A página inicial é a mesma de junho de 2025, com o slogan "Be an icon".

Cartão branco com o texto Be an icon, em letras enormes; abaixo, seu Yat é seu nome de usuário em emoji, endereço de site, endereço de pagamento e mais; botão Create your Yat.
y.at em 21/10/2026: a loja continua aberta.

Mas quem abre a página hoje vê primeiro outra coisa:

Por cima da página do Yat, uma janela de anúncio de uma casa de apostas esportivas oferecendo 100 euros de bônus no primeiro depósito, com pagamento em cripto. A arte do anúncio e o fundo estão desfocados.
y.at em 21/10/2026: um anúncio de casa de apostas abre por cima da página. Arte do anúncio e fundo desfocados por nós.

O anúncio não é do Yat, e veio de um lugar que este site conhece bem. A página do Yat carrega, desde 2021, um script de rastreamento de afiliados hospedado num domínio próprio de marketing, y03btrk.com. Até outubro de 2024, o Internet Archive guarda esse arquivo com uns 20 KB, o programa de rastreamento de verdade. O domínio venceu. Em 21/12/2025 ele foi registrado de novo, por outro dono, em outro registrador (RDAP). A primeira captura depois disso, de 2 de janeiro de 2026, tem 2 KB, e o arquivo de hoje faz uma coisa só: injeta, em toda visita ao Yat, o código de uma rede de anúncios.

Quem deixa um domínio vencer não perde só o nome. Perde tudo o que ainda aponta para ele: links, e-mails e, neste caso, um script que o próprio site continua chamando a cada visita. Quem pega o domínio herda essa confiança. É por isso que vale olhar o que volta ao mercado todo mês, e é o mesmo ciclo que acontece no .br: o que acontece com um domínio .br que não é renovado.

E dá para ter emoji no .br de algum jeito?

Como domínio, não. Como caminho, sim, do mesmo jeito que o Yat: seunome.com.br/🍕 é só um endereço que o seu site interpreta. Abaixo do .com.br, num subdomínio, o rótulo também é seu e o Registro.br não opina. Mas o Chrome e o Firefox costumam mostrar um rótulo de emoji como o código xn--..., justamente para evitar sósias, e muito programa de e-mail recusa o endereço. No fim, o melhor endereço continua sendo uma palavra que dá para falar em voz alta. Muitos desses voltam ao mercado todo mês, por R$ 40 por ano.

Como isto foi levantado

A resposta do Registro.br é a da própria caixa de busca do site, consultada em 18/10/2026 para um emoji. A história do Yat vem das reportagens linkadas, de 2018 a 2023, e do Internet Archive. As telas e a troca do script foram vistas em 21/10/2026, no site do Yat, no Internet Archive e no registro público do domínio. Não sabemos quem registrou y03btrk.com de novo, nem se o Yat sabe do anúncio.