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Liberados

Por que o Brasil funciona assim

A explicação

Atualizado em

Os EUA pagam por velocidade; o Brasil paga por atenção. Uma diferença de regra explica todo o resto.

Tudo acima é consequência de uma diferença de regra. Um domínio expira, mais de uma pessoa quer. Quem leva?

Nos Estados Unidos, quem chegar primeiro. Como "primeiro" virou uma corrida de milissegundos, o vencedor de fato é quem tem mais infraestrutura. No Brasil, ninguém: se duas pessoas se candidatam, o nome trava e volta no mês seguinte.

Critério Estados Unidos .com Brasil .br
Liberação contínua, ~84 mil deleções por dia um lote por mês, 125.453 nomes na rodada de set/2026
Quem decide infraestrutura, em milissegundos ninguém tem vantagem: 7 dias, timing irrelevante
Registradores centenas de marcas, milhares de credenciamentos um só
Preço US$ 10,26 no atacado, com alta de até 7% ao ano permitida por contrato R$ 40 fixo
Um interessado ainda passa por leilão ou backorder leva por R$ 40
Dois interessados leilão: o maior lance leva ninguém leva, o nome trava
Leilão primeiro recurso último recurso: ~0,1% dos nomes
Hífen e acento nomes separados, cada um negociável o mesmo nome, colapsado
Quem pode querer qualquer pessoa, no mundo só quem tem CPF ou CNPJ
Para onde vai o dinheiro empresas de capital aberto entidade sem fins lucrativos

Nos EUA, o produto é velocidade

Para nome de qualquer valor, a janela de disponibilidade fecha em menos de um segundo. Cada registrador credenciado tem uma cota de conexões com o registro, então mais registradores, mais tentativas por segundo — e isso produziu um dos fenômenos mais estranhos da infraestrutura da internet:

São centenas de "empresas de registro de domínio" que nunca tiveram um cliente: bilhetes de loteria com CNPJ.

No Brasil, o produto é atenção

Toda essa indústria — os 1.250 credenciamentos, os milhões em taxa, os servidores colados no registro — seria literalmente inútil aqui. A rodada dura 7 dias e o primeiro minuto vale o mesmo que o último. Não há o que otimizar: velocidade vale zero.

E isso não é efeito colateral do desenho: está escrito na norma. Quando o impasse vai para a fase complementar — o leilão — a resolução limita os critérios que o próprio Registro.br pode adotar:

"Os critérios da fase complementar não levarão em conta parâmetros temporais ou quaisquer outros que deem vantagem por capacidade tecnológica." Resolução CGI.br/RES/2017/031, art. 11º, inciso II

Ou seja: o Brasil não deixou de ter uma indústria de drop-catching por acaso, nem por ser mercado pequeno. Velocidade e capacidade técnica estão proibidas de virar critério de desempate — e sem poder virar critério, não há o que a infraestrutura compre. A mesma norma manda resolver por critérios "financeiros e objetivos", nunca subjetivos, que é de onde sai o leilão.

A regra endereça o que o registro pode usar para decidir, não o que o candidato pode pesquisar antes. Pesquisar quais nomes existem e quantos candidatos eles têm continua sendo consulta a dado público — é o que a caixa de busca do próprio Registro.br devolve.

O que sobra é perceber um nome bom que mais ninguém percebeu. Isso é problema de busca e leitura, não de latência: é software, não data center.

A regra de dois

Candidatos Estados Unidos Brasil
zero cai no pool livre cai no pool livre
um ainda paga backorder ou leilão leva por R$ 40
dois ou mais leilão imediato, maior lance leva ninguém leva, o nome trava

Um candidato único leva uma palavra de dicionário por R$ 40 — o preço de uma pizza. Dois candidatos produzem destruição mútua.

É um jogo de covardia, não um leilão. A pergunta que decide a jogada não é "quanto isso vale para mim", é "quantas outras pessoas notaram isto". Por isso esta ferramenta existe: ver a contagem de candidatos antes de gastar uma vaga vale mais que qualquer palpite sobre o nome.

O leilão é o último recurso, não o primeiro. Na primeira rodada do processo competitivo, em 2017, 531 domínios foram a leilão entre cerca de 400 mil liberados — 0,1%. Mediana das ofertas vencedoras: R$ 750. Valor mais frequente: R$ 250. A maioria fecha na casa das centenas.

O hífen que não existe

Entre os 125.453 nomes da rodada de setembro de 2026, o número de rótulos com hífen é zero. Não é gosto do brasileiro — é regra: para comparar nomes, o Registro.br descarta os hífens e converte acentos e cedilha.

cafe.com.br        → registrado
café.com.br        → bloqueado: "já registrado sob sintaxe similar"

casaverde.com.br   → registrado
casa-verde.com.br  → bloqueado: "já registrado sob sintaxe similar"

Em .com, casa-verde.com e casaverde.com são dois ativos independentes, cada um com seu dono e seu preço. Em .br são o mesmo nome. Uma prateleira inteira do investidor americano não existe aqui.

Para onde vai o dinheiro

Nos EUA, o valor do domínio expirado vira lucro privado: a Verisign, que opera o registro do .com, fatura US$ 1,66 bilhão por ano com 49,8% de margem líquida.

No Brasil, o .br é operado pelo NIC.br, sem fins lucrativos, que reinveste em infraestrutura de internet do país — IX.br, CERT.br, Cetic.br. À parte, dinheiro arrecadado com registros .br entre 1998 e 2005, guardado na FAPESP naquela época, virou um fundo de R$ 98 milhões para pesquisa que já financiou 10 centros de pesquisa em inteligência artificial, seis em 2021 e quatro em 2023 (NIC.br, 04/09/2023).

Nos Estados Unidos, a anuidade do seu domínio vira margem de uma empresa listada em bolsa. No Brasil, ela banca a operação do NIC.br — ponto de troca de tráfego, CERT.br, Cetic.br —, e registros de décadas atrás, à parte, ainda financiam pesquisa em IA.